Quando a crise é um projeto

FSP - https://www1.folha.uol.com.br/ - 06/02/2026
Quando a crise é um projeto
Tarcísio acaba com aula de leitura na Terra Indígena Jaraguá
Decisão confirma o que disse Darcy Ribeiro há muitos anos

06/02/2026

Txai Suruí

Os povos indígenas ainda enfrentam imensa dificuldade de garantir uma educação de qualidade em suas aldeias.

Isso decorre de um conjunto complexo de desafios estruturais, como falta de infraestrutura adequada, escolas sem recursos pedagógicos e tecnológicos, carência de professores qualificados, barreiras linguísticas e culturais e até mesmo falta de salas de aula. Esses fatores, somados à histórica falta de investimentos públicos específicos e ao desrespeito à diversidade cultural, perpetuam um ciclo de desigualdade educacional que compromete o pleno desenvolvimento e a autonomia dessas populações.

No entanto, como já nos alertava Darcy Ribeiro: "A crise da educação no Brasil não é uma crise; é um projeto". Prova disso aconteceu nesta semana na Terra Indígena Jaraguá, em São Paulo, quando nos deparamos com a devastadora notícia do fim da aula de leitura na escola da aldeia Kwaray Djekupe. Tal ato não é um acidente. É uma escolha política. É a cara do projeto que desmonta a educação pública, especialmente para quem mais precisa, e ataca primeiro os mais vulneráveis: os povos originários. Negar a leitura é negar a humanidade.

Como nos mostra Paulo Freire, aprender a ler é muito mais que decifrar letras. É aprender a "ler o mundo", ou seja, entender as forças que nos oprimem e descobrir como mudar essa realidade. Quando se retira de uma comunidade indígena o acesso à leitura, ela perde uma ferramenta essencial para preservar suas memórias e registrar suas histórias, para compreender leis e documentos que afetam seus direitos, para dialogar com a sociedade nacional em pé de igualdade e defender seu território e sua cultura.

Se a educação é um "ato de amor" e um "ato de coragem", cortar a leitura é um ato de covardia e desumanização. Assim como Darcy Ribeiro, sonhamos com uma escola que una a floresta e a escola, que valorize o saber tradicional indígena ao mesmo tempo em que ofereça todas as ferramentas do conhecimento moderno.

O que fez o Governo do Estado de São Paulo é o contrário disso e atenta contra o território indígena Jaraguá. Em vez de integrar, segrega. Em vez de enriquecer, empobrece. Em vez de dar voz, silencia. É a negação completa do projeto de país inclusivo com que sonhamos; e os maiores prejudicados são nossas crianças e seu futuro.

Mas atacar justamente a leitura não é um fato casual. A leitura liberta. Quem lê bem pensa criticamente, questiona o poder, defende seus direitos e constrói sua própria narrativa. E isso tudo o governo de Tarcísio não quer. Seu projeto é a crise. Um projeto que quer manter privilégios e desigualdades. Uma população que lê é uma ameaça. Uma população indígena que lê é uma ameaça ainda maior, porque une o conhecimento ancestral à capacidade de disputas no campo das ideias, através do que até hoje é usado contra nós: o papel e a caneta.

A luta pela aula de leitura na Terra Indígena Jaraguá é a luta por um Brasil onde todos, especialmente os historicamente silenciados, possam ler o mundo e escrever seu próprio destino.

Mulher indígena que usa a leitura e a escrita como ato político e de libertação, denuncio e exijo: Tarcísio, devolva nossa aula de leitura!

https://www1.folha.uol.com.br/colunas/txai-surui/2026/02/quando-a-crise-e-um-projeto.shtml
PIB:Sul

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