A luta do povo Kaingang pela demarcação da Terra Indígena Passo Grande do Rio Forquilha, localizada nos municípios de Cacique Doble e Sananduva, no norte do Rio Grande do Sul, expressa a persistência histórica na defesa de seus direitos originários diante da omissão do Estado e das permanentes disputas fundiárias. Mesmo após o reconhecimento técnico de que se trata de território tradicional, o processo demarcatório permanece paralisado por contestações judiciais e decisões que desconsideram a ocupação histórica indígena, aprofundando a insegurança territorial e social vivida pela comunidade.
Nesse cenário de resistência contínua, a formatura de Tailine Franco, mulher Kaingang da Terra Indígena Passo Grande do Rio Forquilha, assume um significado que ultrapassa a dimensão individual. Sua conclusão do curso de Odontologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), celebrada no dia 31 de janeiro de 2026, constitui-se como um ato político coletivo, que evidencia a relação indissociável entre território, educação e dignidade para os povos indígenas.
"A luta do povo Kaingang pela demarcação da TI Passo Grande do Rio Forquilha expressa a persistência histórica na defesa de seus direitos originário"
A celebração ocorreu no próprio território reivindicado pelos Kaingang e reuniu comunidade, familiares e apoiadores. Em um espaço ainda marcado pela fragmentação territorial e pela negação de direitos, o diploma de Tailine simbolizou mais do que uma conquista acadêmica: representou a permanência de um povo que resiste às tentativas históricas de apagamento, seja pela violência fundiária, seja pela exclusão educacional.
Filha de um processo de retomada territorial iniciado nos anos 2000, Tailine cresceu em acampamentos precários, à beira de estradas, em um contexto de insegurança jurídica, racismo e criminalização da luta indígena. Sua trajetória pessoal revela, de forma concreta, os impactos da morosidade do Estado na demarcação das terras indígenas, bem como a importância das políticas públicas de inclusão no enfrentamento das desigualdades estruturais.
Ao acessar e permanecer na universidade pública, Tailine atravessou espaços que historicamente não foram pensados para corpos indígenas. Como tantas outras estudantes indígenas no país, enfrentou o racismo cotidiano, o racismo institucional e o permanente questionamento de sua presença. Sua formatura expõe uma contradição central da sociedade brasileira: quando o Estado garante direitos - como o acesso ao ensino superior por meio de ações afirmativas - os povos indígenas demonstram sua capacidade de produzir conhecimento, ciência e cuidado; quando esses direitos são negados, produz-se sofrimento social evitável.
"A formatura de Tailine Franco, mulher Kaingang da Terra Indígena Passo Grande do Rio Forquilha, assume um significado que ultrapassa a dimensão individual"
Luta pelo território
Essa trajetória não pode ser dissociada da luta territorial. A Terra Indígena Passo Grande do Rio Forquilha teve seus estudos de demarcação concluídos e sua portaria declaratória publicada. No entanto, decisões judiciais fundamentadas na tese do marco temporal buscaram anular esse reconhecimento, como se a memória, a presença e a história dos povos indígenas tivessem data de validade. Apesar de o Supremo Tribunal Federal ter declarado a inconstitucionalidade dessa tese, a realidade concreta segue marcada pela fragmentação: apenas uma pequena parte dos quase três mil hectares declarados encontra-se hoje sob posse do povo Kaingang.
Nesse contexto, a celebração da formatura de Tailine também se torna um gesto de denúncia. Não há educação plena sem território garantido. Não há futuro possível para os povos indígenas sem a efetivação do direito originário à terra. Cada jovem indígena que chega à universidade carrega consigo a luta de sua comunidade, e cada diploma conquistado reafirma a urgência da demarcação das terras indígenas como política estruturante de justiça social e ambiental.
"A celebração da formatura de Tailine também se torna um gesto de denúncia. Não há educação plena sem território garantido"
Depoimento
Durante a celebração, Tailine fez um depoimento que sintetizou essa dimensão coletiva de sua conquista, recuperando memórias da luta territorial, destacando o papel das políticas de ações afirmativas e reafirmando que nenhuma vitória indígena é individual, mas fruto da resistência de famílias, comunidades e povos inteiros.
Ao final da celebração, entre rezas, danças, palavras e partilha, reafirmou-se uma certeza ancestral: o povo que cuida da terra não será esquecido. A história de Tailine Franco demonstra que a luta pela demarcação das terras indígenas não se restringe à disputa por hectares, mas diz respeito à possibilidade concreta de futuro, de permanência e de florescimento coletivo.
A formatura de uma mulher Kaingang em Passo Grande do Rio Forquilha revela, com clareza, que quando a terra resiste, o povo floresce - e que cada direito garantido produz frutos que ultrapassam gerações.
"Tailine fez um depoimento que sintetizou essa dimensão coletiva de sua conquista, recuperando memórias da luta territorial, destacando o papel das políticas de ações afirmativas"
Confira depoimento de Tailine:
PIB:Sul
Áreas Protegidas Relacionadas
- TI Passo Grande do Rio Forquilha
As notícias publicadas neste site são pesquisadas diariamente em diferentes fontes e transcritas tal qual apresentadas em seu canal de origem. O Instituto Socioambiental não se responsabiliza pelas opiniões ou erros publicados nestes textos. Caso você encontre alguma inconsistência nas notícias, por favor, entre em contato diretamente com a fonte.