Réu por morte de Bruno e Dom deve ser ouvido pela PF sobre assassinato de servidor da Funai em 2019

FSP - https://www1.folha.uol.com.br/ - 10/02/2026
Réu por morte de Bruno e Dom deve ser ouvido pela PF sobre assassinato de servidor da Funai em 2019
Polícia sugeriu fim da investigação da morte de Maxciel dos Santos, mas a procuradoria determinou novas ações
Casos podem estar relacionados e têm como pano de fundo exploração de pesca ilegal no Vale do Javari; defesa não foi localizada

10/02/2026

Vinicius Sassine

O MPF (Ministério Público Federal) no Amazonas discordou da proposta de arquivamento feita pela PF (Polícia Federal) e determinou a continuidade das investigações sobre o homicídio de Maxciel Pereira dos Santos, servidor da Funai (Fundação Nacional dos Povos Indígenas) assassinado em setembro de 2019 em Tabatinga (AM), na fronteira com a Colômbia.

A decisão da Procuradoria da República, com a requisição de novas diligências para coleta de provas, foi adotada em um despacho sigiloso no último dia 3. Entre as diligências está o pedido para depoimento de Ruben Dario Villar, o Colômbia, que é réu em outro processo sob acusação de ser o mandante dos assassinatos do indigenista Bruno Pereira e do jornalista Dom Phillips, em 2022.

Até hoje, mais de seis anos após o crime contra Maxciel, o caso segue sem solução. Mesmo assim, no ano passado, a PF sugeriu que o MPF arquivasse o inquérito, uma vez que "não se logrou êxito na individualização das condutas", ainda que tenham existido "robustas diligências investigativas".

A principal suspeita dos investigadores é que Maxciel foi morto em razão de sua atuação de fiscalização na Funai, com repressão à pesca ilegal na Terra Indígena Vale do Javari, a segunda maior do país e onde existe a maior quantidade de indígenas em isolamento voluntário num território.

O caso tem conexão com os homicídios de Bruno e Dom, segundo essa linha de investigação.

Eles foram mortos em uma emboscada no rio Itaquaí, que margeia o Vale do Javari, em junho de 2022, quando retornavam a Atalaia do Norte (AM), a cidade mais próxima. Segundo a denúncia do MPF à Justiça Federal, a dupla foi morta por pescadores de comunidades vizinhas que praticavam a pesca ilegal na terra indígena.

A PF e o MPF apontaram um mandante para o duplo homicídio: Colômbia, descrito como líder de uma organização criminosa que explorava a pesca ilegal no Vale do Javari. Em julho do ano passado, a denúncia do MPF foi aceita e Colômbia se tornou réu na Justiça. Os pescadores que executaram a morte de Bruno e Dom vão a júri popular em Manaus.

Colômbia também é suspeito de mandar matar Maxciel, e por isso o MPF determinou que ele seja intimado e ouvido pela PF, uma diligência considerada "imprescindível" para que a Procuradoria da República possa se manifestar sobre a existência de culpados pelo crime. O mesmo vale para outras diligências determinadas no despacho que discordou do arquivamento sugerido pela PF.

Maxciel foi assassinado com tiros na cabeça, quando pilotava sua moto na avenida mais movimentada de Tabatinga, cidade colada a Leticia, na Colômbia. A mulher e a filha estavam na moto e presenciaram o crime. Os assassinos estavam em outra moto, segundo depoimentos à polícia.

Essa região amazônica é de tríplice fronteira: Brasil, Colômbia e Peru. Maxciel trabalhou por 12 anos na Frente de Proteção Etnoambiental Vale do Javari, da Funai, em ações de vigilância e fiscalização.

A investigação do crime já mudou de mãos por diversas vezes na PF. O exame cadavérico para determinar a causa da morte foi considerado "precário", o que motivou a exumação do corpo e a confecção de um laudo de perícia em 2022.

Os disparos atingiram a fachada de uma agência do Ministério do Trabalho, e um projétil chegou a ser encontrado por uma funcionária, conforme as investigações. Esse projétil, porém, acabou descartado antes de ser coletado pela polícia, o que impediu a obtenção de informações sobre a arma usada no crime.

Um dos homens denunciados pelo MPF por atuação nos assassinatos de Bruno e Dom, Oseney de Oliveira (o Dos Santos), chegou a registrar boletim de ocorrência na polícia contra Maxciel, em que afirmou terem existido vistorias irregulares na comunidade de pescadores, conforme a investigação sobre o homicídio do servidor da Funai. Esse é mais um elemento que conectaria os dois casos.

No caso das mortes de Bruno e Dom, o MPF no Amazonas denunciou como executores do crime Amarildo Oliveira, o Pelado; seu irmão Oseney; e Jefferson da Silva Lima, o Pelado da Dinha.

Amarildo e Jefferson serão levados a júri popular. Por falta de provas, o TRF (Tribunal Regional Federal) da 1ª Região determinou a exclusão de Oseney do julgamento popular.

Já o homicídio de Maxciel segue distante de uma solução. "A morte e o desaparecimento dos principais investigados inviabilizam o prosseguimento das apurações e a obtenção de novos elementos", afirmou a PF no pedido de arquivamento.

A Procuradoria da República em Tabatinga discordou e determinou a continuidade das investigações. A oitiva de Colômbia e outras diligências devem ser feitas em até 90 dias. A reportagem não localizou o responsável pela defesa do suspeito.

https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2026/02/reu-por-morte-de-bruno-e-dom-deve-ser-ouvido-pela-pf-sobre-assassinato-em-2019.shtml
PIB:Javari

Related Protected Areas:

  • TI Vale do Javari
  •  

    As notícias publicadas neste site são pesquisadas diariamente em diferentes fontes e transcritas tal qual apresentadas em seu canal de origem. O Instituto Socioambiental não se responsabiliza pelas opiniões ou erros publicados nestes textos. Caso você encontre alguma inconsistência nas notícias, por favor, entre em contato diretamente com a fonte.